Bom, eu não sei por onde começar este texto.
Direi aqui que meu nome é Eduardo, mas saiba que esse nome não consta em minha identidade. Vou adotar esse pseudônimo para preservar meu nome verdadeiro que, apesar de insignificante para o leitor, que jamais saberá de que cidade venho ou de onde escrevo…É importante para aquele que vos escreve permanecer com o nome no anonimato.
Desculpe, estou perdendo meu foco, acontece quando você é acostumado a escrever sobre vários assuntos todos os dias. Mas, vamos direto ao ponto.
Como dito anteriormente, meu nome é Eduardo, nasci no interior de Minas (outra peça de minha realidade misturada com ficção) e sinceramente sinto falta daquela cidadezinha de interior, com apenas um supermercado e uma escola pública.
Aquilo sim era vida! Acordar as nove da manhã, fazer a cama, deixar pronto o dever de casa e finalmente sair para a rua para encontrar meu amigo Pedro.
Pedro era o tipo de amigo que eu sabia que nunca me deixaria. (Isso se comprovaria ainda mais com o passar dos anos). No auge dos meus oito anos eu confiara todos os meus segredos a ele e ele fazia o mesmo comigo, todas as preocupações profundas de meninos de oito anos que nem espinhas tinham eram discutidas todos os dias em meio a bolinhas de gude e sorvetes no verão.
Mas o que eu mais gostava era do ritual que criamos no nosso aniversário.
Por um incrível acaso do destino, eu e Pedro fazíamos aniversário no mesmo dia, uma ou duas horas me tornavam mais velho que ele.
Então, todo dia 7 de abril, eu acordava e corria para a janela, lá havia um papelzinho meio amassado com uma bolinha de gude enorme e reluzente em cima.
No ano em que completávamos 9 anos de idade, o ritual se repetiu, porém era especial.
Eu acordei e corri para a janela, lá estava a bolinha de gude mais bonita que eu já vi na vida, com cores douradas, vermelhas, azuis e embaixo um bilhetinho.
“Feliz Aniversário, essa bolinha já ganhou de todos os meninos da rua de baixo.”
Eu vibrava! Era a “lendária” bolinha do meu amigo. Éramos conhecidos por toda a cidade (que se resumia a 900 habitantes) por sermos os melhores na bolinha de gude e como garotos normais, zelávamos por essa reputação.
Então eu peguei um papel do meu caderno e anotei.
“Feliz Aniversário amigão! Aqui de presente a bolinha que eu juntei dinheiro por um mês para comprar.”
Então, sem dores no peito nem dúvidas, eu tirei do meu balde a minha bolinha preferida e saí correndo de casa, para deixar na janela do quarto do meu amigo.
Posso dizer que esse ritual se repetiu por vários anos, mesmo nós dois crescendo e os interesses mudando, era uma coisa que gostávamos de fazer.
Então, no meu aniversário de 19 anos eu corri para a janela e lá estava meu presente.
“Feliz Aniversário seu tosco, aqui uma bolinha que eu adorava jogar”
Eu corria e fazia o mesmo com ele.
Porém a vida fez questão de nos levar para caminhos diferentes, eu fiz faculdade de Jornalismo no Rio de Janeiro e meu tão querido e inseparável amigo Pedro foi trabalhar como engenheiro naval no porto de Rio Grande.
Mas, mesmo estando longe fisicamente, eu e ele continuávamos inseparáveis, toda semana chegavam cartas e cartas dele, eu as respondia na mesma quantidade e riqueza de detalhes.
As novas tecnologias chegavam ao mercado, mas apenas trocamos um ou dois e-mails antes de retornarmos a nossas amareladas cartas que depois eram guardadas com tanto carinho.
Então, algo inesperado aconteceu. Eu não sei até hoje se algum dia estaria preparado para aquela notícia.
Eu havia mandado uma carta para ele contando uma repercussão negativa de um conto meu no jornal local e esperava sua resposta entusiasmada.
Porém a carta que eu recebi não havia a grafia dele. Era formal e desconhecida. Até hoje só li essa carta uma vez, foi suficiente para absorver tudo que ela queria me transmitir.
“Caro Eduardo,
Quem vos escreve é Ana, irmã de nosso querido Pedro.
Sinto em lhe informar que ele faleceu nesta manhã, resultado de vários anos fumando, ele já se encontrava doente há alguns meses.
Sei como vocês dois eram próximos e sei que onde quer que ele esteja, ele está olhando por você.
O enterro dele é amanhã, você pode comparecer, mas sei que ele entenderá se não puder.
Com carinho,
Ana”
Sei que fiquei parado por uma hora, com aquela carta nas mãos e as lágrimas escorrendo por meu rosto.
Como? Como meu companheiro de primeiras aventuras, meu confidente, meu irmão, meu cúmplice, como ele não estava mais ali?
Como eu não receberia mais cartas dele? Como eu não seria agraciado com suas histórias mirabolantes e divertidas?
Isso não podia estar acontecendo. Então corri para uma dessas casas cheias de computadores com seus números e pedi socorro a um jovem tedioso.
“Garoto! Me deixe usar isto!” Talvez por causa de meu tom o rapaz se levantou rapidamente.
O pouco que eu sabia mexer nestas máquinas me ajudou a encontrar a realidade cruel.
Lá estava ele, na lista de óbitos da minha não-mais-pequena cidade natal.
Não pude parar de chorar naquela noite. Por que ele nunca mencionou a doença? Ele mentira dizendo que havia parado de fumar….Que desgraçado! Agora eu estava sozinho nesse mundo.
Sem meu melhor amigo eu não era ninguém.
Então eu decidi que devia me despedir dele, fui olhar no aeroporto qual o primeiro avião do outro dia.
Foi quando eu percebi.
No outro dia eu estava de aniversário.
Ele também estaria.
Nós dois faríamos 30 anos.
Merda Pedro!
Comprei as passagens, incrédulo de que daqui a poucas horas veria pela ultima vez o rosto antes sorridente de meu amigo.
Ao chegar em Rio Grande, a cidade para mim era funesta, não haviam crianças brincando, mulheres vindo do mercado, nada.
Fui direto ao cemitério e uma depressão abateu-se sobre mim.
Mas nenhuma sensação foi tão terrível quanto ver meu amigo, encaixotado.
Lá estava ele, de terno, as mãos no peito e o rosto tentando aparentar um semblante sério.
Nem morto ele conseguia parecer sério.
Fui recebido com olhares confusos e desconfiados, ninguém me conhecia, eu não queria conhecer ninguém.
Só olhava para o meu melhor amigo.
Nunca mais ouviria a voz rouca dele, nunca mais receberia suas cartas.
Isso dói.
Mas eu não havia ido ali de mãos abanando.
Quando tive oportunidade, fiquei sozinho com meu amigo.
As lágrimas vinham, era inútil evitá-las.
Então, delicadamente, eu tirei do meu bolso um papelzinho retangular.
Com uma bola de gude amarrada por uma fita vermelha.
“Feliz Aniversário amigo. Vou sentir sua falta. Essa era a sua favorita.”
E coloquei-a no bolso do terno que ele trajava, perto do coração.
Com um grande aperto no peito, afaguei os cabelos dele mais uma vez e beijei-lhe a testa.
Andei alguns passos em direção a irmã dele que havia sido atenciosa em me escrever uma carta.
Antes que pudesse agradecer, ela caminhou até minha pessoa.
-Você era especial para ele.
-Ele também era especial para mim. Continuará sendo. Carregarei-o em meu coração.
Ela sorriu e abriu a bolsa.
-A última coisa que ele me pediu…foi que entregasse isso para você.
Ela tirou um embrulho vermelho da bolsa e entregou para mim.
Com as mãos trêmulas eu abri o pacote, não acreditando na genialidade de meu amigo.
“Feliz Aniversário amigo. Talvez eu não esteja com você para comemorarmos nossos 30 anos, eu estou meio impossibilitado, mas não podia falhar com você.
Aqui, esta bolinha de gude era sua favorita, lembra quantas vezes nós ganhamos os campeonatos do bairro com ela? Espero que realmente chegue às suas mãos.
Não quero você chorando por mim, estarei no céu, esperando você chegar para sentarmos em uma nuvem e discutirmos sobre a ineficiência dos correios em entregar nossas cartas um para o outro.
Pedro”
(aym e m.a)